29/01/2009

A lareira

Que raiva esta.
Da estagnação e do consentimento, da nostalgia e do conformismo, do comodismo, e de ti que andas aos saltos. Farto do acelarado, do touro e do artista, do marado e do anarquista, esses dormem todo o dia. Perturbam-me os rótulos, os catálogos e as etiquetas mas não esqueço as vossas marcas. De todos os que me lembro. Poeta ou cantor, pessoal do amor e o ilustrador, grafiter e/ou escritor. Peço-vos por favor que me apareçam em forma útil um dia e escrevamos um real manifesto de compromissos. Vamos cantar e amar, ilustrar e escrever, e aparecer com um sorriso amarelo, conformado mais um dia. Triste o dia em que já não acredito em mim e duvido dos outros.
O exagero afasta-me de tudo o que já esteve tão perto, a imensidão assusta-me e sinto mais perto o calor desta lareira; " Triste de quem vive em casa, contente com o seu lar, sem que um sonho, no erguer da asa, faça até mais rubra a brasa da lareira a abandonar!... "disse ele, pois com certeza quente se sentia, quente como era, no conforto do seu lar ou nas ruas a gritar.
Iludem-me as palavras e frustram-me os seus significados, a sua ligeireza e desprezo quando actuam em nome do homem. Que linguagem simples esta, a das nossas vontades.

07/01/2009

Façam o pino e abram os olhos!

Pois é!
O mundo está ao contrário. De pernas para o ar, absolutamente! Percebi-o agora, é incrível! Vou passar a explicar como o mundo deveria ser, portanto preparem-se para uma volta de 180º:
Primeiro, a segurança social devia deixar de servir para a reforma, serviria a partir de agora para uma aposentação não na velhice mas sim na infância, A acção da segurança social incidiria ,então, não no topo mas na base da vida. A inversão total! E os fundos desta nova segurança social destinar-se-iam ao desenvolvimento pessoal e único de cada um. Como concordaria Agostinho da Silva teríamos que adulterar o menos possível a criança e deixá-la edificar-se por si mesma apoiada somente na sua poesia. Era um momento privilegiado de crescimento pessoal e espiritual. A criança escolheria as áreas artísticas em que se quereria desenvolver. Ou limitar-se-ia a brincar, actividade nobre e prolífica. A opção era dela. Todo o sistema pedagógico devia investir-se integralmente nesta nova causa: a edificação do indivíduo, a partir da criança, logo natural e livre de traumas e ressentimentos. Jamais algum adulto chegaria à sua idade com saudades de ser criança porque o tinha sido plenamente e assim continuaria. Mais, a criança só depois do seu estágio de liberdade e desenvolvimento pessoal estaria capaz e deveria iniciar, então, de livre vontade a formação que escolhesse. Mas toda a criança seria formada não tendo em conta a sociedade já edificada, não tendo em conta esta como referência mas sim tendo como referência a própria criança, isto é, a essência do homem. Só assim uma sociedade poderá reflectir os indivíduos constituintes, só assim uma sociedade poderá servir o próprio Homem.
Segundo, o serviço público de cada um, o seu trabalho, só depois desta fase surgiria. Com a pessoa já formada, ou melhor, por si formada, pois aqui edificar-se-iam autodidactas, e dadas as condições, as vocações seriam bem conhecidas dos próprios, logo, as funções que cada um escolheria seriam para si as adequadas. E quanto mais adequadas à própria pessoa mais adequadas à própria colectividade pois essas funções motivadas naturalmente pela paixão pessoal seriam consequentemente cumpridas com gosto, brilho e eficiência.
Terceiro, o serviço público prestado pelo Estado, se é que seria necessário Estado nesta nova sociedade, estaria liberto, ou, pelo menos, bastante aliviado da maioria dos seus encargos a este nível. A nível político, e em termos brutos, o trabalho seria pouco certamente porque seria de esperar uma sociedade civil que sabia para onde queria ir e por onde quereria ir. Uma sociedade civil mais capaz, mais forte, mais coesa que erigiria políticas públicas justas, adequadas e prolíficas. Em termos mais concretos, por exemplo ao nível da segurança, também era de esperar que houvesse menos problemas pois as tensões acumuladas por um trabalho que não fosse o adequado à pessoa não existiam ou eram bastante menores. A própria moral de que se reveste o Estado e em particular as forças de autoridade seriam de menor importância porque tinha sido permitido e efectivamente estimulado nas pessoas o desenvolvimento da sua própria ética, logo, as pessoas estariam dotadas de um sentido de resposabilidade muito natural que roçaria certamente o próprio sentido de liberdade. Por exemplo ao nível da saúde os encargos também seriam com toda a certeza menores. Os novos indivíduos conhecendo-se bem e profundamente estariam muito mais habilitados para lidar com todo o tipo de psicossomatismos. E tendo-lhes sido preservada a sua infância, tendo-lhes sido perservado o seu prazer natural pela vida e pelo seu ritmo e natureza provavelmente estariam muito mais atentos ao cuidado da sua saúde porque a valorizariam verdadeiramente. E neste sentido certamente não dispensariam as chamadas medicinas alternativas, pelo contrário, valorizariam-nas exactamente porque estas premeiam a prevenção e manutenção da saúde e não somente a cura da doença já instalada.
Ao longo do texto fui já dando pistas para a finalização da acrobacia, a volta de 180º: a reforma. A reforma deixaria de existir pois as pessoas trabalhando para o que gostavam desgastavam-se muito menos. O trabalho não as enfraquecia, pelo contrário, fortalecia-as, pois nele acontecia a troca mais essencial, de tipo comunitário. O trabalho era uma expressão natural do próprio, vital para o utente, mas também vital para o prestador do serviço. O trabalho fortalecia a sociedade, solidificava os seus laços, pois estes eram forjados em sinceridade. O trabalho mantinha a chama acesa do indivíduo ao mesmo tempo que permitia realizar a sua natureza social. Logo, desta maneira as pessoas provavelmente manter-se-iam capazes até a uma idade bem mais avançada. Desconfio até que se entristeceriam se se vissem forçadas a uma dada altura da sua vida a ter que abandonar o seu trabalho.

Como é que é? Vamos experimentar?

Retire-se o circo ao povo

Retire-se a arte ao homem e ele finalmente ver-se-á forçado a reinventar o mundo. Falo do mundo terreno, do palpável. Aquele a que todos temos o direito de nele reinar.
-Retire-se o circo ao povo! Retire-se o ópio às pessoas! A arte na visão budista e ser o poema são diferentes coisas. Cresce-se no e com o mundo. Sem ser nesses casos é puro consumismo. Mais um. Consumismo de nós próprios. É autofágico, é sexo virtual, meus amigos. Uma ilusão, uma consolação que impede que o mais maravilhoso se realize: O viver, agora, sendo.
Tiraram-nos o dieito à violência no grande "projecto civilizacional", logo, facilmente nos dominaram. E em troca ofereceram-nos apenas a arte. Bela merda! Que funciona ao mesmo tempo como consolação pessoal e como instrumento de manutenção da ordem. É o melhor escape para os oprimidos, essa arte a que nós chamamos muito pomposamente, mumificados em vestes de erudição: individualismo. Conceito que se confunde com tudo, hoje em dia, também: é viver numa democracia, é o livre consumismo, são todos os direitos pela política concedidos. Vejam lá: concedidos! Confunde-se com tudo isto e ainda muito mais.
-E assim é assegurada a obediência dos povos em detrimento da degradação do homem. Voilá!
Puta que vos pariu!

Não mediação

Poucas vezes materializei a minha arte. Só tardiamente me vi forçado a reinventar o meu mundo. Só tardiamente me vi enclausurado, impedido de ser. Logo, só tardiamente tive contacto com a condição essencial para a vocação de artista: A impossibilidade social de ser.
Até lá era o poema como diria Agostinho da Silva ou a minha arte era a vida como diria Lou Andreas Salomé. O mundo chegava-me, o mundo era generoso e, logo, eu com ele. Não havia grande mediação. Hoje em dia, as dificuldades são maiores mas a mesma atitude teima em sobreviver: Persistente na não mediação. Que se manifesta ou manifestava da seguinte forma:
O dia a dia seria o palco, as discussões ensaios, as conversas a prosa ou a poesia, o falar sozinho o canto, o toque a escultura, a contemplação a pintura, o caminhar a dança, a imaginação e os devaneios poderiam ser o cinema.
Por vezes questiono-me porque sou tão agarrado às artes físicas, o Yôga, o Aikido e porque continua a ser a voz o meu instrumento eleito na música, a par com a flauta que coloco numa fasquia alta também. Outras vezes chego mesmo a questionar-me porque não me sinto mais tentado a tocar um instrumento, a desenhar, a esculpir ou outra coisa qualquer. Artes que não me surgiram naturalmente mas que eu poderia experimentar. Mas esse questionamento normalmente já vem acompanhado de um estado de insegurança característico ou de alguma inveja portanto deixa-me hesitante apesar de eu andar de facto a experimentar uma e outra coisa aqui e ali. Mas tudo isto se deve essencialmente à minha inclinação e persistência pela não mediação. Atitude essa que por não ser tão facilmente "detectada a olho nú" por vezes me deixa inseguro. Lá está!... Mas que obviamente tenho que valorizar.
Ainda ontem estava a passear na minha quinta a descascar à mão uma laranja acompanhado por um camarada canídeo a olhar a paisagem e pensei:
-A arte é uma estupidez, uma consolação para os oprimidos.

Mudança de pele

Por momentos a guerra abrandou.
Começo a mudar de pele.
Mas o processo é mórbido e confunde-me.
Não sei quanto de mim a natureza levará.
Por vezes penso que levará demais.
Será ela também gananciosa?
Poderei eu nela confiar?

Estou a mudar de pele.
E a pele que deixo para trás
é dura, escura e seca.
Contudo sem ela tenho dúvidas, medo, vergonha de mim.
A vulnerabilidade da beleza assusta-me.
Desabituei-me. Desabituei-me na vida que levo.

Encontro-me enrolado que nem uma serpente.
Mais belo que nunca.
E protejo-me...

06/01/2009

Esperar

Constato que cada vez mais me intrujo a mim propria com obsessoes mentais.Parece ser um habito ha mais ou menos 5 anos, este de esmiucar na cabeca as minhas atitudes e as dos outros.
Tomou agora a forma de um jorrar incessante que me assalta a todos os segundos e que tento parar.Por vezes sinto-me demente porque falo muito comigo propria.Isso tambem advem das condicoes em que me encontro agora , espero.
Hoje vi um velho a falar alto consigo proprio e assustei-me.
Parece-me contudo proveitoso porque de quando a quando julgo descobrir-me.Hoje, revelou-se-me que obceco de uma maneira puramente platónica ,que cresce até chegar ä melancolia de nao ter.E aí paro, com satisfacao em sofrer.O apogeu da dor.
Como chegamos ao vicio da melancolia?Porque nao procurar a obsessao platonica até ao ponto do sofrimento mudando rapidamente para uma outra fixacao galopante?Devia procurar a alegria!
Os paradoxos...Nao ha felicidade sem dor.